quarta-feira, 8 de maio de 2013

Zeit Geist.


Muitas publicações e relatos são feitos sobre esse tema. Uma das mais completas é a que assisti num vídeo chamado Zeit Gest, que significa o espírito do tempo, e o qual descrevo, resumidamente, uma parte impressionante.
A miséria no mundo é imensa. Os conflitos são brutais e destrutivos. As agressões são constantes. Nele, 34.000 crianças morrem diariamente, de pobreza e doenças evitáveis e, onde 50% da população vivem com menos de dois dólares por dia… Uma coisa está clara: algo está errado!
Por quê? Porque o homem não procura mudar, é o mesmo de todos os tempos.
A questão é o que somos. Se somos maus ou bons, bem sucedidos ou não.
A vida é só um passeio e, tudo se aprende no caminho. A escolha para mudar é somente nossa. O segredo é descobrir o que éramos o que somos e, o que queremos ser.
Hoje a maior crise é a crise de consciência. Pois, em nosso mundo ainda há preconceitos: sociais, raciais, religiosos e fervores nacionalistas raivosos. Tudo isso leva-nos a essa crise de consciência. Para tentarmos mudar essa situação não se deve mais aceitar os velhos padrões, as antigas normas e, muitas vezes, as ultrapassadas e preconceituosas tradições.
A sociedade em que vivemos é composta por diversas instituições. Instituições religiosas, políticas, de classes sociais e de valores familiares.
É notória e profunda a influência que essas estruturas, tradicionalizadas, possuem sobre a formação de nossas perspectivas e compreensões.
Entretanto, entre todas essas instituições sociais nas quais nascemos, vivemos e, que nos condicionam, a que menos a maioria compreende e, que mais subestima é o sistema bancário.
O sistema monetário como está toma proporção quase religiosa e, é desconhecida da maioria da população.
Infelizmente, estando cientes desse processo ou não, o sangue que corre nas veias de todas essas instituições é o famigerado dinheiro.
Essa complexidade criada pelos sistemas financeiros é proposital e nefasta. Foi criada para esconder uma das estruturas mais socialmente estagnadas que a humanidade precisa tolerar. São sequências infinitas de termos financeiros, aliados a cálculos intimidadores que fazem a maioria das pessoas desistir de tentar entendê-las. Contudo, isso não se consegue quebrar e, nos prende a essas instituições.
Os bancos não sobrevivem sem os empréstimos e, sempre existe uma demanda para essas transações, as quais atendem as exigências de reservas do sistema financeiro. Ou seja, do que se empresta, muito permanece na agência para ser emprestado, novamente, para outro. Assim, cria-se um dinheiro fictício. Isso praticamente indefinidamente. Até pode-se dizer que isso é uma fraude.
Alimenta-se a inflação e, a verdadeira fraude ocorre quando distorcem o valor da moeda. O único modo de o dinheiro existir é através dos empréstimos das instituições financeiras. Bilhões de dólares que ouvimos na mídia são meramente cifras eletrônicas, são virtuais, porém tem o poder de mudar muito na população. Tudo isso criado pelo sistema financeiro, o que é um meio de controle de massas.
Isso torna o povo escravo do sistema. O capital apossa-se e controla a mão de obra, controlando seus salários, controlando o dinheiro. O povo nunca vai ficar livre das dívidas. As pessoas continuarão correndo para sobreviver sem sair de seus lugares. Na verdade é um sistema moderno de escravidão, criado por juros, que dificilmente poderão ser pagos. Portanto, se trabalha realmente para o sistema financeiro, para grandes corporações e para os governos.
Tudo isso fortalece o império do dinheiro que só beneficia a elite da pirâmide. Esse é o espírito do Tempo. É o Zeit Geist.

Realidade Obscura...

Realidade Obscura.

Eu vivo em um mundo estranho. Ainda tento entender como vim parar aqui e qual o verdadeiro motivo da minha permanência nesse lugar. Com tantos mundos por aí, eu gostaria de saber se fiz algo errado para vir parar logo aqui. Nasci em um mundo onde existem pessoas que não choram ao ver as outras chorarem. Um mundo onde a sua vida pode facilmente ser trocada por papéis coloridos ou pedras que brilham. Onde pessoas morrem de fome e de sede, mesmo vendo frutos nascerem à sua frente e a água verter dos céus.
Não, você não gostaria de estar onde eu estou, meu amigo. Até porque, aqui onde vivo, aqueles que não têm sorte ao nascer, sequer têm a oportunidade de ler isso que escrevo. Aqui a maioria das coisas funciona à base da sorte. Mas não é uma simples fortuna, como a de um jogo em que você perde e pode começar novamente. É uma roleta-russa. Sua primeira e única chance. Sim, eu tive sorte, e espero ter ainda mais para que essas minhas palavras cheguem a mundos melhores que possam fazer algo a respeito do que está acontecendo por aqui. Afinal, se ocorre o que ocorre por aqui, é sinal de que aqueles que podem ajudar desconhecem a existência desse mundo.
Já vi pessoas baterem, mesmo tendo a oportunidade de acariciar. Se você andar pelas ruas e prestar atenção, verá rostos manchados por lágrimas e mãos sujas de sangue. Em certos lugares consegue-se até mesmo sentir na própria pele o desespero que emana de pais que não têm com o que alimentar os filhos, enquanto vê esses mesmos filhos estraçalhando o corpo e a alma de seus pais.
Eu não estou onde deveria estar e sinto que todos os dias acordo apenas para, mais tarde, dormir novamente. Você não gostaria de ver o que eu vejo, meu amigo. De sentir o que eu sinto. Já estou aqui há muito tempo, mas ainda tenho a esperança de que existe, em algum lugar, algo melhor reservado para mim e para os que não tiveram a sorte que eu tive.
Vejo pessoas que dizem que me amam, mesmo me odiando, e outras que dizem que me odeiam, enquanto me amam. Como entender isso? Quero viver em um mundo onde as pessoas amem de verdade. Quero viver em um lugar onde eu possa ver flores até onde a visão conseguir alcançar. Possa ouvir alguém chorar de felicidade. Possa ver uma criança rir.

Tenho certeza que existe um mundo assim. Um mundo onde eu acorde ao som da melodia dos pássaros livres e durma vendo uma infinita cortina de pontos brilhantes cobrindo o céu. Um mundo onde vozes toquem o meu coração. Quero ouvir uma música que acalme a minha alma. Quero sentir o abraço daqueles que eu amo.
Sim, aqui é proibido amar. Amor é interesse. É ruim. É desculpa. É pecado. Aqui, amor é tudo, menos sentimento. Vejo as esperanças se esvaírem do coração de algumas pessoas e eu também já estou começando a enfraquecer. Meus desejos já não são mais tão fortes quanto costumavam ser e a prova de que minhas forças estão terminando são essas singelas palavras que agora você pode ler. Preciso de ajuda. Meus olhos estão começando a ser vendados e sinto minhas mãos cada vez mais presas às minhas costas. Sinto-me endurecer e esfriar. Sinto-me morrer, devagar e dolorosamente, vendo a dor de outros que já não consigo mais sentir.
Preciso enxergar, mais uma vez, o verdadeiro mundo onde cresci. O mundo onde vivi na minha infância, quando as lágrimas que escorriam de minha face eram secas com atenção e meus ferimentos eram curados por sorrisos. Onde, mesmo eu sendo tão pequena, todos aqueles que eu amava estavam a um passo de distância.
Assim, meu bom amigo, se mesmo após ler tantas palavras sofridas, você chegou até aqui, seu coração viajou um mundo inteiro. Minha história é a sua história e meu mundo é seu mundo. Mesmo estando a mais do que um passo de distância, ainda assim caminhamos lado a lado de mãos dadas. Percorremos a mesma trilha e, se você pode ler isso, é porque, como eu, acredita. Acredita que a saudade cura e a dor fortalece. E que, no final, se houver mais alguém nesse mundo que creia nisso tanto quanto nós, ainda teremos por quem continuar nesse horrível mundo perfeito.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Física e Conhecimento Humano

Física e Conhecimento Humano
 
Desde o início, ciência e filosofia caminharam juntas e, pelo menos até o século XIX, não fazia muito sentido separar as teorias científicas das teorias filosóficas. O que hoje consideramos ciências era antes chamado, de um modo geral, de "filosofia da natureza"(1). Esses estudos procuravam fornecer uma explicação sobre o mundo que permitisse apontar as leis determinantes de todos eventos naturais, incluindo o movimento dos corpos celestes, as reações dos elementos químicos e a origem dos seres vivos.
À medida que essas teorias obtinham êxito na descrição dos fenômenos da natureza, crescia a ilusão de se construir uma teoria pura e completa, capaz de prever com exatidão todos os acontecimentos, muito antes que eles viessem a ocorrer. A concepção do "demônio de Laplace" - uma entidade, que ao observar, ao mesmo tempo, a velocidade e posição de cada elemento na natureza, seria, a partir disso, capaz de deduzir toda evolução do Universo, tanto no passado como no futuro - representa o tipo de mentalidade confiante que foi constituída graças ao sucesso das leis propostas por filósofos, como Isaac Newton e Antoine L. Lavoisier (1743-1794), tanto na física como na química. Essa entidade imaginária - sugerida pelo astrônomo e matemático Pierre Simon Laplace (1749-1827) - revela o quanto a perspectiva determinista da natureza estava arraigada na pretensão das ciências clássicas. Bastava que se conhecesse a posição e a velocidade iniciais dos objetos, para que uma lei natural pudesse prever todos eventos a eles relacionados, sua origem e seu destino.
Tamanha pretensão acabou por gerar uma tendência a separar os rumos das pesquisas científicas, da investigação filosófica dos fundamentos e princípios que explicariam porque um certo fenômeno acontece de um modo e não de outro. Às ciências seria suficiente encontrar uma teoria que descrevesse o comportamento da natureza e pudesse prescrever seus desdobramentos, enquanto caberia à filosofia a justificativa racional do porque disso ser assim e não de outro modo. Como conseqüência dessa divisão de tarefas, o positivismo, desenvolvido por Auguste Comte (1798-1857) na sua forma mais radical vem propor a redução da filosofia especulativa - sobretudo a metafísica - aos resultados da ciência, cujo método deveria ser aplicado a todas as outras formas de conhecimento. Surgem, então, as ciências sociais - a antropologia e a sociologia - como disciplinas voltadas exclusivamente para o exame dos mecanismos e relações que geram os fatos sociais e a interação humana, de um perspectiva neutra, deixando de lado as motivações e interesses que estão na origem do conhecimento científico.
Determinismo e Indeterminação
As ciências clássicas, destacadas da filosofia, assumem, portanto, essas características deterministas e de pretensão de neutralidade que permitiram o desenvolvimento de uma tecnologia como produto de um conhecimento positivo da natureza. Entretanto, enquanto essa vertente cientificista ia tomando corpo, outras pesquisas, que produziam resultados divergentes dos paradigmas dominantes, começaram a abalar as certezas em torno das leis clássicas da física.
Durante os dois séculos que se seguiram à inauguração do sistema newtoniano, as três leis fundamentais da mecânica e a noção determinista imanente permaneceram inabaláveis. As principais dificuldades para a visão mecanicista do universo surgiram a partir da segunda metade do século XIX em diante. Principalmente depois que o físico alemão Rudolf J. E. Clausius estabeleceu, em 1850, a segunda lei da termodinâmica - também conhecida como princípio de degradação de energia (ou entropia) -, pela qual o calor não passa espontaneamente de um corpo para outro de temperatura mais alta, mas sim do corpo mais quente para o mais frio. 
Ao longo do tempo, seria impossível que o calor dissipado por um corpo fosse reconstituído depois dele ter esfriado. Isso não permitiria a reversibilidade do tempo, como queria Newton, dificultando a localização de um ponto no passado, desde os dados do presente, uma vez que a energia fora dissipada por um objeto em movimento, não poderia ser totalmente resgatada. Isso não forneceria condições para o cálculo absolutamente preciso de sua trajetória num tempo passado, pois o tempo teria uma direção irreversível que privilegiaria o deslocamento para o futuro.
Por outro lado, o matemático francês Jules-Henri Poincaré, em 1905, observava que mesmo a lei da gravitação - por ele considerada a "menos imperfeita de todas as leis conhecidas"(2) - quando prevê o movimento entre dois corpos no espaço, deve negligenciar a interferência de outros objetos envolvidos nessa relação, a fim de poder calcular com "precisão" as suas trajetórias. A órbita da Lua em torno da Terra, por exemplo, teria de omitir a influência do Sol e outros astros do sistema solar. O deslocamento da Lua só poderia se dar com uma quase-certeza, aquém da pretensão suposta pela física clássica: "embora essa probabilidade seja praticamente equivalente à certeza, não é mais que uma probabilidade", disse Poincaré em O Valor da Ciência(3).
Poincaré foi o primeiro a mostrar, matematicamente, a complexidade existente na interação gravitacional de um sistema com mais de dois corpos e que a física clássica não poderia encontrar uma solução geral, para esse tipo de problema, na trilogia Les Méthodes Nouvelles de la Mécanique Céleste (Os Novos Métodos da Mecânica Celeste,1892-1899). Mas é com o surgimento da física quântica que o determinismo das leis naturais se torna problemático nas experiências que tentam fazer uma medição das partículas subatômicas. A dificuldade de medição decorre do fato de que o próprio ato de observação de uma partícula altera a posição e a velocidade do objeto examinado. Os eventos da física atômica apresentam a impossibilidade de se prever a trajetória de um elétron, por exemplo, no intervalo entre os momentos inicial e final da experiência, por mais preciso que seja o instrumento.
Em conseqüência disso, o físico dinamarquês Niels Bohr (1883-1962) propunha que, apesar dos fenômenos transcenderem "o âmbito da explicação da física clássica, a descrição de todos os dados deve ser expressa em termos clássicos"(4). Dessa forma, ele procurava descrever os novos fenômenos através de uma linguagem "complementar" que utilizasse os termos consagrados pela tradição, ao lado de um rigoroso cálculo matemático que fosse além da perspectiva determinista ou reducionista das imagens clássicas. Ou seja, os "dados obtidos em diferentes condições experimentais não podem ser compreendidos dentro de um quadro único, mas devem ser considerados complementares, no sentido de que só a totalidade dos fenômenos esgota as informações possíveis sobre os objetos"(5). Assim, onde a descrição da física clássica falhasse, uma nova interpretação do fenômeno, sob a ótica da matemática formal da mecânica quântica, ampliaria o quadro explicativo, proporcionando maior precisão na explicação do evento físico.
Conhecimento e Interesse
As conseqüências dessa nova postura da física contemporânea podem ser estendidas para as ciências humanas, em geral. A impossibilidade de reduzir-se o comportamento humano a uma explicação meramente mecânica, mantém como válida as descrições que levam em conta o livre arbítrio, as crenças e os desejos. Pois as ciências da natureza não poderiam se valer de conceitos como liberdade e vontade, tradicionais na atribuição de intenções aos agentes humanos, já que da perspectiva externa dos observadores das ciências da natureza, a explicação só poderia se dá utilizando termos como posição dos corpos, aceleração, massa, força, entre outros, sem apelar para fatores intencionais de cada indivíduo envolvido.
A impossibilidade de uma construção teórica objetivista e reducionista, por parte das ciências empíricas, atinge também a pretensão de neutralidade, que outrora se imaginava quanto aos interesses subjetivos dos próprios cientistas. Uma vez que - tanto na física, como na sociologia - a posição do pesquisador-observador interfere decisivamente nos resultados da experiência, sua postura neutral fica comprometida. Neste instante, os interesses de cada um devem ser considerados. Cabe, então, à epistemologia, como crítica filosófica do conhecimento científico, questionar os métodos da ciência em sua pretensão de formular uma ciência pura da natureza, sem levar em conta os interesses de quem observa e é observado, ao se fazer uma escolha por um determinado encaminhamento da investigação.
A aplicação do método das ciências empíricas às ciências humanas não pode mais aspirar ao reducionismo ou eliminação de uma explicação que considere os interesses específicos de cada disciplina. A crítica epistemológica, do conhecimento científico, pode agora chamar atenção para o fato de que o suposto objetivismo das ciências esconde uma tentativa de fornecer instruções dogmáticas para a ação, sem qualquer reflexão quanto aos interesses incorporados na busca de conhecimento. 
A crítica filosófica das ciências pode afirmar, tendo em vista os desdobramentos das revoluções científicas, que tal neutralidade não impede os cientistas de intervirem na prática social, segundo os interesses sugeridos nas leis deterministas ou não de suas teorias(6). A manutenção de um paradigma cientificista imparcial e reducionista revela o tipo de interesse e a estrutura comunitária de um grupo de cientista que opta por uma concepção determinista da natureza e que pensa ter a ciência o poder de predizer os fenômenos, permitindo maior controle sobre eles. Apesar de todos problemas cognitivos impostos pela física contemporânea e a pela crítica filosófica quanto à motivação dos cientistas, ainda há físicos como o inglês Stephen Hawking e o biólogos como E. O. Wilson que pensam o universo e o comportamento humano enquanto geridos por leis deterministas que o esforço da ciência tenta descobrir(7).
Tal tipo de comportamento demonstra que, por mais isenta que seja uma pesquisa científica, a sua orientação é feita tendo em mente os interesses e a tradição de um certo grupo de cientista que elaboram suas teorias e executam suas experiências, de acordo com os pressupostos aceitos pela comunidade a qual cada um esteja vinculado. Pois como sugere Thomas Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas (1970), é o paradigma dominante que elegerá os membros a serem aceitos pela comunidade científica, o processo a ser adotado, os objetivos a serem investigados, além das variantes aceitáveis, segundo o padrão científico(8).
A ciência, como toda atividade humana, está sujeita a esses fatores de socialização que visam a sobrevivência do grupo ou comunidade. As experiências que fogem dos padrões adotados, como aquelas que demonstraram as características aleatórias, não deterministas, na natureza, serviram para apontar as limitações das pretensões reducionistas e deterministas do conhecimento científico que predominou nas ciências clássicas. Por outro lado, elas serviram também como uma contra-prova que revelou as tendências dogmática e positivista dos cientistas que tentavam propor leis inquestionáveis para a ação humana, diante da natureza. Nestas circunstâncias, a implementação desse novo paradigma indeterminista da física contemporânea contribuiu para que a epistemologia criticasse a neutralidade dos cientistas quanto aos interesses sociais e sua incorporação numa tradição histórica, que nem sempre é assumida pelos próprios pesquisadores, seja nas ciências da natureza, nas exatas ou humanas. O que prova a existência de limites para o conhecimento científico neutro e absoluto.
Bibliografia
ASIMOV, I. Gênios da Humanidade. - Rio de Janeiro: Bloch, 1974.
BOHR, N.  Física Atômica e Conhecimento Humano; trad. Vera Ribeiro. - Rio de Janeiro: Contraponto, 1995.
HABERMAS, J.  Técnica e Ciência como "Ideologia"; trad. Artur Morão. - Lisboa: Edições 70, 1987.
KUHN, Th. A Estrutura das Revoluções Científicas; trad. Beatriz V. Boeira e Nelson Boeira. - São Paulo: Perspectiva, 1997.
NEWTON, I.  Princípios Matemáticos; trad. Carlos L. Mattos. - São Paulo: Abril Cultural, 1983.
PENROSE, R. O Grande, O Pequeno e a Mente Humana; trad. Roberto L. Ferreira. - São Paulo: UNESP/Cambridge, 1998.
POINCARÉ, J-H. O Valor da Ciência; trad. Mª Helena F. Martins. - Rio de Janeiro: Contraponto, 1995.
PRIGOGINE, I. e STENGERS, I. A Nova Aliança; trad. Miguel Faria e Mª Joaquina M. Trincheira. - Brasília: Unb, 1991.
Notas
1. Isaac Newton (1642-1727) batizara sua obra principal de Philosophie Naturalis Principia Mathematica (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, 1687), enquanto o naturalista Jean B. Lamarck (1744-1829) publicara sua teoria evolucionária no livro Philosophie Zoologique (Filosofia Zoológica, 1809), que muito influenciou Charles Darwin.
2. POINCARÉ, J-H. O Valor da Ciência, cap. XI, § 5, p. 158.
3. POINCARÉ, J-H. Op. Cit, idem.
4. BOHR, N. "O Debate com Einstein Sobre Os Problemas Epistemológicos Da Física Atômica", in Física Atômica e Conhecimento Humano, p. 50.
5. BOHR, N. Op. Cit., p. 51.
6. Veja HABERMAS, J. "Conhecimento e Interesse", in Técnica e Ciência como "Ideologia", cap. VII, p. 145/147.
7. Veja HAWKING, St. Buracos Negros, Universos-Bebês e WILSON, E. O. Sociobiology. - Cambridge: Havard University Press, 1975.
8. Veja KUHN, Th. A Estrutura das Revoluções Científicas, posfácio p. 217-257.
 

O argumento do desígnio

O argumento do desígnio

Uma discussão

Introdução

... Neste ensaio, apresento, analiso e discuto um dos argumentos mais utilizados pelos teístas para defender a existência de Deus — o argumento do desígnio.

Apresento logo no início deste trabalho uma citação bíblica que mostra que o argumento do desígnio tem um forte fundamento bíblico. Para a análise do argumento, considerarei o argumento do desígnio conforme foi formulado pelo filósofo empirista David Hume, no séc. XVIII. Para a discussão do argumento, considerarei as objecções que lhe foram levantadas pelo próprio David Hume. Devo dizer que, na discussão do argumento, guiar-me-ei também pela análise dos filósofos contemporâneos John L. Mackie e Simon Blackburn, e terei em séria consideração as objecções científicas que o biólogo darwinista Richard Dawkins apresenta contra o argumento do desígnio.

Com este trabalho, pretendo demonstrar que o argumento do desígnio não é logicamente válido e que é refutado pela ciência, nomeadamente pela teoria darwinista da evolução das espécies pela selecção natural.

O Argumento do Desígnio

“Depois disso o Senhor respondeu a Job de um redemoinho, dizendo: Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge os teus lombos, como homem; porque te perguntarei, e tu me responderás. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faz-mo saber, se tens entendimento. Quem lhe fixou as medidas, se é que o sabes? ou quem a mediu com o cordel? Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina, quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?” (Job 38, 1-7)

A partir desta passagem do "Livro de Job", do Antigo Testamento, podemos inferir que a concepção de Deus que nela está presente é a de um Deus Criador, que lançou as fundações do mundo, que lhe deu forma e regularidade — enfim que o construiu. A ideia de Deus como Criador e construtor do mundo, da sua complexidade e perfeição, é, em termos gerais, a ideia defendida pelo argumento do desígnio.

O argumento do desígnio é um dos argumentos mais usados pelos teístas para defender a existência de Deus. De acordo com este argumento, o modo regular, ordenado e complexo como o universo está organizado revelam o desígnio de um ser divino criador do universo. Mais concretamente, os "sinais do desígnio" (do original "marks of design", expressão utilizada em Mackie 1982 para designar os fenómenos e objectos naturais como provas do desígnio) são os seguintes:

1.Todos aqueles objectos naturais que se assemelham a máquinas feitas pelo homem;
2.O modo como as partes na natureza se juntam e se combinam entre si; e
3.A adaptação dos meios aos fins.
Destes "sinais do desígnio", estabelecendo uma analogia entre os desígnios e as obras humanas e os desígnios e obras divinas, os teístas inferem a existência de um autor divino cuja inteligência e planeamento sejam de algum modo análogos às dos humanos. Esse autor é Deus, o suposto criador do universo.

Do argumento do desígnio, destacam-se as seguintes características: é um argumento

1.A posteriori;
2.Teleológico;
3.Por analogia; e
4.Probabilístico.
É a posteriori, porque parte de dados empíricos — a observação empírica do modo complexo e regular como o universo está ordenado e, mais concretamente, dos "sinais do desígnio" — para deles inferir a existência de Deus; é teleológico, uma vez que pressupõe que o universo existe segundo um fim, e que esse fim é um desígnio de Deus; é por analogia, porque é muitas vezes formulado e sustentado com analogias, sendo exemplo disso o clássico argumento por analogia do relojoeiro (que apresentarei e discutirei mais adiante); e é probabilístico, porque a argumentação baseia-se sempre em (e depende de) probabilidades, nomeadamente a probabilidade de que

1.A ordem, a complexidade e a regularidade do universo resultem de um desígnio;
2.De que certos objectos e acontecimentos naturais sejam sinais desse desígnio;
3.E de que, por último, dada a evidência desse desígnio, Deus exista de facto, pois só Deus o poderia planear e realizar.
Ao analisar e discutir o argumento do desígnio, demonstrarei que, seja qual for o modo como for formulado, é um argumento inválido, com muitas fragilidades e incorrecções, que não serve para provar a existência de Deus.

O Argumento do Desígnio Apresentado e Discutido por Hume

Eis como, nos Diálogos sobre a Religião Natural, de David Hume, o personagem Cleantes apresenta o argumento do desígnio:

“Observa o mundo em redor; contempla a sua totalidade e todas as suas partes; verás que não é senão uma grande máquina, subdividida num número infinito de máquinas mais pequenas, que admitem uma vez mais subdivisões que ultrapassam o que os sentidos e as faculdades humanas conseguem registar e explicar. Todas estas várias máquinas, e mesmo as suas partes mais ínfimas, se ajustam entre si com uma precisão que impõe admiração a todos os homens que as contemplaram. A curiosa adaptação de meios a fins, em toda a natureza, assemelha-se exactamente, apesar de exceder em muito, aos produtos do artifício humano: ao desígnio, pensamento, sabedoria e inteligência humanos. Portanto, uma vez que os efeitos se assemelham entre si, somos conduzidos a inferir, segundo todas as regras da analogia, que as causas também são semelhantes: e que o Autor da Natureza é de algum modo análogo ao espírito humano, apesar de estar dotado de faculdades muito maiores, proporcionais à grandiosidade da obra que executou. Demonstramos imediatamente por este argumento a posteriori, e só por ele, a existência de uma divindade e a sua semelhança ao espírito e inteligência humanos.” (Hume 1776:15)

O modo como o argumento do desígnio está aqui apresentado é uma das formulações clássicas deste argumento, muito conhecida como a analogia do relojoeiro. Podemos formular este argumento da seguinte maneira:

1.O relógio, pela sua complexidade e pelo modo como está ordenado, é uma máquina que tem que ter um autor e construtor inteligente, com capacidades proporcionais à sua obra — o relojoeiro humano.
2.O mundo, pela sua complexidade e pelo modo como está ordenado, é como um relógio.
3.Logo, o mundo também tem que ter um autor e construtor inteligente, com capacidades proporcionais à sua obra — o relojoeiro divino (Deus).
Basicamente, este argumento defende que, do mesmo modo que, perante um relógio, podemos pressupor a existência de um ser inteligente que o tenha construído segundo um determinado fim, também perante o mundo podemos pressupor igualmente a existência de um ser inteligente que o tenha construído segundo um determinado fim, dadas as semelhanças entre um relógio e o mundo. Enquanto no primeiro caso a hipótese mais plausível para o construtor do relógio seria um relojoeiro humano, no segundo caso a hipótese mais plausível para o construtor do mundo seria um "relojoeiro divino", pois só este poderia ser capaz de uma tal obra.

Este argumento é uma analogia, mas, como veremos seguidamente, levanta vários problemas. Vejamos: é óbvio que o mundo é complexo, tem uma ordem e os acontecimentos naturais têm uma regularidade; ainda assim, a analogia com o relógio é frágil, remota e redutora. Em primeiro lugar, é frágil, pois enquanto o relógio é uma máquina perfeita, já o mundo é uma "máquina" cheia de imperfeições e irregularidades que fogem à sua ordem ou regularidade normal. Em segundo lugar, é remota, porque as eventuais semelhanças entre o relógio e o mundo só poderão ser consideradas como semelhanças muito distantes, apenas em alguns aspectos — não se pode dizer, com segurança, que a ordem do mundo é semelhante à ordem do relógio, pois enquanto temos a certeza, pela experiência, de que o relógio e a sua ordem foram criados segundo um fim, não temos certeza nenhuma, por não termos tido qualquer experiência disso, de que o mundo e a sua ordem foram sequer criados, muito menos de que existem também segundo um fim (que seria divino) e não apenas pelo acaso natural (esta última explicação é, de resto, a explicação científica). Em terceiro lugar, é uma analogia redutora, porque, enquanto o relógio é uma máquina com uma complexidade limitada às suas pequenas dimensões, já o mundo é uma "máquina" de dimensões não comparáveis às do relógio, pelo que a sua complexidade também não poderá ser comparada à do relógio. Ora, se uma analogia só pode ser estabelecida a partir de um exemplo que seja semelhante num aspecto relevante — no caso da analogia do relógio, o exemplo seria o relógio e o aspecto semelhante seria a complexidade do relógio comparável à complexidade do mundo —, e se acabámos de ver que este argumento por analogia não preenche estas condições, concluímos que a analogia não é válida, logo, o argumento é inválido e não deve ser considerado como uma boa prova da existência de Deus.

É a personagem Fílon, nos Diálogos de Hume, que discute principalmente este argumento que Cleantes apresenta. Fílon começa por apresentar outras analogias que podem ser estabelecidas entre acontecimentos naturais e cujas conclusões são reconhecidamente erradas, acabando por evidenciar a dissimilitude entre os relógios, casas (outro dos exemplos muito usados pelos teístas) e outras obras humanas, e os objectos e acontecimentos naturais, afirmando que só uma conjectura falível poderia pressupor uma causa similar entre objectos e fenómenos de semelhança tão remota. Mas uma das objecções mais fortes que Fílon apresenta a Cleantes e ao seu argumento do desígnio é a seguinte:

“Mas, permitindo que possamos tomar as operações de uma parte da natureza sobre outra como o fundamento do nosso juízo com respeito à origem do todo (o que nunca se pode admitir), porquê, todavia, seleccionar um princípio tão minúsculo, tão fraco, tão limitado como a razão e o desígnio dos animais que encontramos neste planeta? Que privilégio peculiar tem esta pequena agitação do cérebro a que chamamos "pensamento" que temos assim de fazer dela o modelo de todo o universo? A nossa parcialidade a nosso próprio favor apresenta-a de facto sempre que pode; mas a filosofia sólida deve proteger-se cuidadosamente de uma ilusão tão natural.” (Op. Cit., p. 19)

É deste modo que Fílon torna evidente a fragilidade da analogia. É que do facto de haver operações mentais como o pensamento e a intenção em algumas partes da natureza, nomeadamente nos humanos e noutros animais, não se segue que essa possa ser a regra do todo que é a natureza, que excede em muito esta parte de que Fílon fala. Chegar à explicação do todo partindo apenas de uma parte, sem mais, torna o argumento muito frágil. Ao mesmo tempo, como diz Fílon, se estamos preparados para admitir (ainda que não o devamos fazer) este método de raciocínio como válido, porquê, então, escolher a parte da natureza que mais nos diz respeito, e não outra? Isto leva-nos a outra das objecções contra o argumento do desígnio, que é a arbitrariedade com que os teístas escolhem a hipótese de Deus e do desígnio como a explicação certa, quando muitas outras são possíveis, umas igualmente frágeis (ou mesmo absurdas), outras bastante mais sérias. Eis o que diz Fílon a Cleantes propósito de outras explicações possíveis:

“Se o universo suporta uma maior semelhança com os corpos animais e vegetais do que com as obras da sabedoria humana, é mais provável que a sua causa se assemelhe à causa dos primeiros do que à da última, e a sua origem deva mais propriamente ser atribuída à geração animal ou vegetal do que à razão ou ao desígnio. A tua conclusão, mesmo de acordo com os teus próprios princípios, é portanto fraca e imperfeita. [...] O mundo assemelha-se mais a um animal ou a um vegetal do que a um relógio ou tear. É mais provável, portanto, que a sua causa se assemelhe à causa dos primeiros. A causa dos primeiros é a geração animal ou vegetal. Podemos inferir, portanto, que a causa do mundo é algo semelhante ou análogo à geração animal ou vegetal.” (Op. Cit., pp. 44-45)

De facto, esta hipótese de Fílon, para além de ser mais lógica e plausível do que a hipótese teísta de Cleantes, é a que se aproxima mais das teorias darwinistas da evolução das espécies por selecção natural, que surgiriam um século mais tarde (séc. XIX), bem como se aproxima de todas as descobertas científicas posteriores, não só da biologia, como da química, e sobretudo da física, quanto às possíveis certezas que podemos ter sobre a criação do universo. Segundo a ciência, foram os acontecimentos naturais que, numa sucessão de acasos (sem qualquer desígnio especial ou divino), embora de acordo com as "leis da natureza", deram origem à criação do mundo e à sua existência tal como o conhecemos. Assim, antes ainda de poder sonhar sequer com as teses darwinistas e o modo como estas revolucionaram o conhecimento científico, Hume, através do seu personagem Fílon, já apresentava uma objecção ao argumento do desígnio que nem ele poderia imaginar que viesse a ser uma das bases científicas mais devastadoras para este argumento.

Os teístas poderão objectar que este argumento de Fílon continua a deixar questões em aberto, como a causa da "geração animal ou vegetal", ou, para ser mais preciso, a reprodução biológica. Mas Fílon tem tanta legitimidade para parar a sua explicação neste argumento como têm os teístas para parar a sua explicação na conclusão da analogia do relojoeiro, isto, é que Deus existe. Afinal, podemos questionar tanto a causa da reprodução biológica — que Fílon não avança — como podemos questionar a causa de Deus — que Cleantes também não avança. A diferença, e Hume não a poderia prever, é que a causa da reprodução biológica viria a ser satisfatoriamente explicada pelo darwinismo; o mesmo não se pode dizer, no entanto, da hipótese teísta, uma vez que, até à actualidade, o mais que os teístas conseguiram avançar sobre a causa de Deus é que ele é causa de si mesmo, auto-explicativo. Ora, esta é uma explicação circular, ou seja, nada explica nem acrescenta ao nosso conhecimento. Mesmo que admitíssemos a existência de Deus e do seu desígnio como explicação para a causa do universo (explicação que a ciência dá como bastante mais simples, pela mera casualidade dos acontecimentos naturais), teríamos uma nova questão, certamente ainda mais difícil de explicar: sendo Deus um ser inteligente e omnipotente capaz de conceber o mundo segundo um determinado plano ou desígnio, então a sua causa e existência carecem de uma explicação porventura mais urgente do que a causa do universo. Qual é a causa de Deus e porque é que existe? É certo que os teístas não têm uma resposta para estas novas questões que eles mesmos levantam. Porquê, então, admitir a hipótese que apresentam, se nada tem de plausível? Mas vejamos o que diz Fílon ainda sobre a sua escolha da "geração animal ou vegetal" como explicação preferível:

“Se baseio o meu sistema de cosmogonia no primeiro, de preferência ao segundo, é por escolha minha. A questão parece-me completamente arbitrária. E, quando Cleantes me pergunta qual é a causa da minha grandiosa faculdade de geração animal ou vegetal, tenho igualmente o direito de lhe perguntar qual é a causa do seu grande princípio racional. [...] A julgar pela nossa experiência, limitada e imperfeita, a geração tem alguns privilégios sobre a razão; pois todos os dias vemos esta última surgir da primeira, mas nunca a primeira da última.” (Op. Cit., p. 47)

Como víamos atrás, a escolha pode ter sido arbitrária para Hume (ou para Fílon, neste caso), mas hoje não podemos dizer o mesmo, uma vez que, enquanto a hipótese teísta já nem de probabilidades se pode sustentar com muita segurança, já a hipótese científica, da qual Hume apresenta, sem saber (mas parece intuitivamente apostar estar certo), um esboço embrionário, está perfeitamente sustentada e merece toda a credibilidade.

Outra das objecções possíveis ao argumento do desígnio, e que voltam a mostrar o quão frágil e remota é a analogia do relojoeiro, assenta no facto de que, enquanto nós temos experiência da construção de relógios, casas, entre outras obras e segundo os mais diversos fins, não temos qualquer experiência da construção de universos, muito menos de qualquer desígnio respeitante a estes. Não tendo esta experiência e a informação crucial que dela resultaria para apoiar a analogia do relojoeiro, este argumento é claramente inválido. Veja-se o que diz Fílon sobre isto:

“Quando duas espécies de objectos foram sempre observadas a combinarem-se juntas, eu posso inferir, pelo hábito, a existência de uma onde quer que veja a existência da outra; e a isto chamo um argumento a partir da experiência. Mas onde este argumento possa ter lugar onde os objectos, como no caso presente [da analogia do relojoeiro], são singulares, individuais, sem paralelo ou semelhança específica, pode ser difícil de explicar. E dir-me-á algum homem com uma tranquilidade séria que um universo ordenado tem que surgir de algum pensamento ou sabedoria como a humana porque nós temos experiência disso? Para estabelecer este raciocínio seria preciso que tivéssemos experiência da origem dos mundos; e não é suficiente, certamente, que tenhamos visto barcos e cidades surgirem da sabedoria e inventividade humanas.” (Op. Cit., p. 20-21)

Realmente, a nossa experiência limitada não nos permite inferir daquilo que, dentro das nossas possibilidades e capacidades, temos experiência, realidades — como a existência de Deus, o seu desígnio e a realização construtiva deste — das quais não temos e não podemos ter qualquer experiência nem informação. Uma tal inferência seria completamente errada, como já vimos.

Há ainda uma última objecção ao argumento do desígnio, que tem a ver com o problema do mal. É pela palavra de Fílon que, uma vez mais, Hume discute os vários pontos do argumento do desígnio, desta vez referindo-se ao problema do mal, com a clara intenção de, ao referi-lo, ridicularizar o argumento inicial:

“Numa palavra, Cleantes, um homem que siga a vossa hipótese é talvez capaz de afirmar ou de conjecturar que o universo surgiu a dado momento de algo como o desígnio; mas, além dessa posição, não poderá asseverar uma circunstância única e pode depois fixar todos os pontos da sua teologia com toda a licença da fantasia e do hipotético. Este mundo, que ele saiba, tem muitas falhas e imperfeições, comparado com um padrão superior; e foi apenas a primeira tentativa rude de uma qualquer divindade infantil, que mais tarde o abandonou, envergonhada com o seu deficiente desempenho; é a obra apenas de uma divindade dependente e inferior, e é objecto de troça dos seus superiores; é o produto da idade avançada e da senilidade de uma qualquer divindade aposentada, e desde a sua morte tem continuado por inércia, a partir do primeiro impulso e força activa que dele recebeu. [...] E, pela minha parte, não posso pensar que um sistema de teologia tão selvagem e instável seja preferível a nenhum.” (Op. Cit., pp. 37-38)

Fílon ridiculariza, de facto, o argumento do desígnio: dado que o mundo é tão cheio de imperfeição e de mal, a ter sido criado segundo o desígnio de uma divindade, essa divindade só poderia ser ou inexperiente ou estar já incapacitada. Obviamente, estas duas hipóteses não se põem com seriedade. Servem apenas para mostrar como o argumento do desígnio acaba por ser a melhor objecção contra si mesmo: se se infere do mundo e da sua ordem, tal como o conhecemos, a existência de Deus que o criou segundo um plano que ele próprio concebeu, isso implica que esse Deus não pode ser perfeitamente bom e sumamente justo, como os teístas normalmente o qualificam. E este é o problema do mal: se Deus existe e se é o criador do mundo, e se entre as suas qualidades se contam a omnipotência e a perfeita bondade, então porque é que há mal (e tanto mal, diga-se!) no mundo? Se é certo que há mal no mundo, não é certo que Deus exista sequer, sendo ainda menos certo que seja omnipotente e perfeitamente bom. O que é certo é que, exista ou não, ou é omnipotente, ou é perfeitamente bom, não podendo ter ambas as qualidades. Os ateístas afirmam que Deus não é nem uma coisa nem outra, pois não existe. E, considerando as objecções tão fortes que são apresentadas contra os tão implausíveis argumentos teístas, será pelo menos mais prudente aceitar as teses ateístas.

Para finalizar, o argumento do desígnio — nomeadamente a analogia do relojoeiro — levanta esta espada de dois gumes aos teístas: se o teísta afirma que a semelhança entre os humanos e Deus é grande, para reforçar a sua tese da semelhança entre os desígnios e as obras dos humanos e de Deus, então isso implica que as características de Deus se assemelhem de tal modo às humanas, que a imperfeição, a finitude e as limitações várias terão que estar incluídas neste rol de semelhanças. Ora, daqui segue-se que um Deus tão parecido com os humanos, e, por consequência, tão limitado e imperfeito como estes últimos, não poderia ter construído o mundo. Logo, o argumento do desígnio é refutado por uma das afirmações em que precisa de se apoiar. Por outro lado, se o teísta afirma que a semelhança entre os humanos e Deus é remota, para não correr este risco que acabamos de apontar, então isso implica reconhecer que a analogia é de facto frágil e remota, e implica também que não podemos, desse modo, saber quais as características de Deus; logo, não sabemos se ele teria ou não sido capaz de conceber e criar o mundo (para além de nem sequer sabermos se existe). Logo, o argumento do desígnio é refutado por uma das afirmações que precisa de preservar também para ser mantido. O que descobrimos é que, de uma maneira ou de outra, considerando esta e as objecções que já apresentei e analisei anteriormente, o argumento do desígnio não nos oferece, de facto, uma explicação séria e fiável, sendo, pelo contrário, ilógico porque inconsistente, cientificamente errado e contraditório, e auto-refutante.

Conclusão

Procurei apresentar e discutir o argumento do desígnio na sua formulação tradicional, baseando-me para isso nos célebres Diálogos sobre a Religião Natural de David Hume, em que o autor trata este argumento de uma forma reconhecidamente rigorosa. A todas as objecções que o próprio David Hume apresentou ao argumento do desígnio, juntei alguns pontos críticos meus e baseei-me em alguns pontos críticos de apoio apresentados por John L. Mackie, Simon Blackburn, Richard Dawkins e pelo próprio Richard Popkin, na sua introdução aos Diálogos.

Espero que este trabalho seja elucidativo e que permita perceber como é que o argumento do desígnio é formulado, quais as suas implicações, as objecções que lhe são levantadas, e por que razão, afinal, falha no seu objectivo: não prova a existência de Deus. Espero também que este trabalho possa ser um instrumento de reflexão para que cada um possa chegar às suas próprias conclusões sobre o problema analisado.

Bibliografia

Blackburn, S. (1999) Pense, Trad. A. Infante et al., Gradiva, Lisboa, 2001.

Dawkins, R. (1986) O Relojoeiro Cego, Trad. Isabel Arez, Edições 70, Lisboa, 1988.

Hume, D. (1776) Dialogues Concerning Natural Religion, ed. Richard H. Popkin, Hackett Publishing Company, Indianapolis, 1998 (2.ª Edição).

Mackie, J. L. (1982) The Miracle of Theism: Arguments for and against the existence of God, Oxford University Press, Oxford, 1982.

O experimento das duas fendas...

O experimento das duas fendas

Este é um dos experimentos paradoxais que deram origem à nova ciência, a física quântica. Vale a pena conhecê-lo, pois ele faz que repensemos a posição e o papel do homem (e de todos os seres sencientes?) nes...te universo infinito.


O assunto merece nossa maior atenção e, para ser apreciado, o abandono de todos os preconceitos; só assim poderá ser compreendido em suas profundas implicações.
Sobre as descobertas impressionantes, e até mesmo consideradas, inicialmente, absurdas, da física quântica, está a afirmação de que, não existindo um ser senciente ‘observando’, não existe este mundo que vemos em torno de nós, isto é, nada existe no mundo da manifestação, no mundo do espaço-tempo.


Veja: na Internet, no site Wilkpedia, na explicação (uma das explicações) relativa ao 'experimento', no final da página do 'Dr. Rabbit' (o porta-voz dos físicos), está a pergunta:
- 'E o que um observador (um ser humano) tem a ver com isso?'


E, em seguida, como está também em várias obras de renomados cientistas:
- 'Um observador provoca o colapso da função de onda (de probabilidades de coisas) simplesmente... por OBSERVAR.'


O que significa isso? Significa que, não havendo um observador senciente, as ondas de probabilidades de coisas, objetos, seres, não entram em colapso e, conseqüentemente, não se transformam em partículas de matéria; não havendo partículas, não há matéria, isto é, o mundo da manifestação ao nosso redor, o mundo do espaço-tempo não existirá. Ou melhor, só existirão ondas de probabilidades de possíveis partículas.


Por aí podemos verificar que nós (e todos os seres sencientes?), somos necessários para que exista o mundo dos fenômenos ao nosso redor e em nós mesmos. Não havendo observação não há mundo. Aquilo a que denominamos Deus produz tudo o que existe, mas essa existência não prescinde de nossa observação: portanto, nós completamos a 'criação', ou melhor, a manifestação do mundo; Deus cria e nós damos o retoque final.
Essas implicações nos colocam numa situação muitíssimo diferente daquela a que as diferentes religiões populares do mundo nos colocam. Vale a pena analisar.


A física quântica desvendou novos horizontes (novos para nós, mas antigos para as escolas de tradição de meditação, antigos para os místicos) para nossa compreensão das coisas do mundo, de quem e do que somos, de tudo isso que aí está e que não compreendemos (e por isso sofremos). Nossa interpretação do mundo é incorreta e isso é a razão de todos os problemas do mundo. Esses novos horizontes mostram qual é, na verdade, a posição do homem neste universo infinito e eterno. Este texto, portanto, merece nossa cuidadosa análise.


O Experimento das duas Fendas em poucas palavras:
A partir dos estranhos resultados das experiências cientificas pelas quais os cientistas entraram no mundo das sub-partículas do átomo, verificaram-se descobertas perturbadoras. Einstein chegou a afirmar que, em face desses resultados, ’não há mais um palmo de chão firme sobre o qual se possa construir alguma coisa’; q todas as descobertas anteriores do homem teriam de ser reinterpretadas, porque agora se percebia que a ciência anterior (a ciência clássica da qual o mundo extraiu todo seu conhecimento, para todas suas áreas, por mais de 300 anos, com base nas interpretações de Newton e Descartes), não lidava com o mundo, mas com uma falsa interpretação ou falsa imagem do mundo.


O EXPERIMENTO:
um anteparo com duas fendas (orifícios) verticais; além dele um filme que seria impressionado por partículas de matéria, que seriam atiradas através das fendas. Utilizando-se um dispositivo especial, a partícula era atirada, passava por uma das fendas e deixava seu sinal, ou risco, ou ponto, impresso no filme. Mas, e aqui começam as coisas perturbadoras, muitas vezes a impressão gravada no filme mostrava que a partícula, uma só partícula, passava pelas duas fendas ao mesmo tempo, pois interferia, no filme, com ela mesma, ou melhor, que a partícula deixava de ser partícula de matéria e se comportava como onda de energia. Isto é, o objeto se comporta como partícula (passando por uma das fendas), ou como onda de energia (passando pelas duas fendas). Estranhíssimo e perturbador!


Exaustivamente repetido o experimento, chegou-se à conclusão inescapável de que a partícula atirada só se comportava como partícula de matéria quando havia um observador senciente, um ser humano (ou outro animal senciente?) observando o experimento; quando não havia um observador, não existia matéria, apenas energia.


CONCLUSÃO: a formação da matéria, ou sua criação, exige a observação de um ser senciente para q se concretize. Aquilo q não conhecemos, mas a q as religiões populares dão o nome de Deus, cria tudo mas, não havendo observador, a criação não se completa, não se manifesta no espaço-tempo. Como disse acima, Deus cria e nós damos o ‘retoque final’ em sua criação.


(Somos o ‘prolongamento’ de Deus ; como dizem: então somos verdadeiras marionetes nas mãos de Deus? Não, da mesma maneira que nossas mãos não são nossas marionetes: são nossos prolongamentos; assim, também somos prolongamentos de Deus, somos complementação do próprio Deus).